FUTEBOL E TRAIÇÃO

Quando, em 2002, o Wimbledon renegou seu passado para virar MK Dons, ninguém imaginaria que dez anos depois ele o reencontraria. No domingo, 2 de dezembro, o time criado pelos fãs abandonados enfrenta pela primeira vez o clube que se deslocou 90 km rumo ao norte para ter um estádio em que pudesse mandar seus jogos.

A história renderia um filme. O Wimbledon passou 89 anos nas ligas amadoras inglesas. Conseguiu o direito de disputar seu primeiro campeonato profissional em 1977. Nove anos depois estava na primeira divisão inglesa. Mas foram dois acontecimentos ligados à Copa da Inglaterra que mudaram a história do pequeno clube de bairro da zona sul de Londres.
A primeira delas é a lendária geração “Crazy Gang”, um time de brutamontes que conquistou em 1988 a FA Cup diante do Liverpool, o papão de títulos da época. Foi a segunda equipe na história a conquistar a versão amadora e também a profissional. 
Há uma penca de livros sobre essa era. O principal deles é The Crazy Gang: The Inside Story of Vinnie, Harry, Fash and Wimbledon FC, de Matt Allen. Mas vou me ater ao ultimo, lançado neste semestre na Inglaterra: Underdog, de Tim Quelch.
Quelch estabelece um definitivo ponto de combustão futebol/pop desde a década de 1950. O livro – não apenas sobre o Wimbledon, mas sobre todos os vira-latas que fizeram história no futebol inglês – classifica seus capítulos por músicas da época.
A do Wimbledon se encaixa em Rise, canção do PIL de 1986, das linhas “eu posso estar certo, eu posso estar errado”. Nada melhor para definir aquele time. Eles eram temidos por jogarem feio. Tinham no elenco um mau caráter, Vinnie Jones. Seu estádio era o acanhado Plough Lane, para 7000 pessoas. Podia estar tudo errado. Podia estar tudo certo. Quem define isso?
Foi na campanha da FA Cup de 1988 que Vinnie protagonizou a inesquecível cena em que aperta as partes baixas de um jovem Paul Gascoigne, então no Newcastle. Vinnie, que depois viraria um ator requisitado (esteve em Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Penalidade Máxima), foi o grande personagem. No jogo decisivo contra o Liverpool, não poupou cuspes e disse: “Nada dessa história de cumprimentar. Vamos passar direto”. O time fez um pacto: nada de se barbear ou de tomar banho 24 horas antes da final. O Wimbledon venceu por 1 x 0.
Um ano depois, o mesmo Liverpool enfrentou o Nottingham Forest em Sheffield pela semifinal da FA Cup. Uma confusão nas arquibancadas fez com que 95 pessoas morressem esmagadas. Em 1990, Lorde Taylor de Gosforth elaborou o relatório que ordenou que todos os estádios das duas principais divisões inglesas tivessem espaços apenas para torcedores sentados.
Foi o começo do fim do Wimbledon. Era impossível adaptar o pequeno Plough Lane à nova regra. Assim, o clube passou a mandar seus jogos no estádio do Crystal Palace, o Selhurst Park, também no sul de Londres. Foi lá que registrou o pior público da história da liga inglesa: 3039 pagantes para assistir a um Wimbledon x Everton, já pela Premier League em 1993.
A proposta para mudar de cidade foi aceita em 2002 pelos proprietários do clube. Milton Keynes tinha um bom estádio, mas não tinha time. Os torcedores protestaram. Em vão. Como vingança, fundaram o próprio clube, o AFC Wimbledon. A federação inglesa aceitou a mudança de cidade em 2004, desde que um novo clube fosse criado esquecendo o passado.
Desde então, o MK Dons é chamado de “franquia” pelos admiradores do velho Wimbledon. O clube criado pelos torcedores ascendeu meteoricamente para a Football League. Chegou na temporada 2010/11 à quarta divisão, a primeira etapa profissional do futebol inglês. Está a apenas um degrau do clube que renegou a sua história em troca de um estádio.

FUTEBOL E SUAS MUDANÇAS

DIALETOS
O debate sobre estilos jamais terá fim porque o futebol é como um idioma e seus vários dialetos. A escolha de uma forma de se comunicar depende de capacitação e de visão de mundo. O objetivo final é o mesmo, a diferença está no caminho para alcançá-lo.
José Mourinho e o Chelsea aplicaram a “estratégia do morcego” no jogo contra o Atlético de Madrid: todos pendurados no travessão. Diante do time inglês – beneficiário de um dos mais generosos orçamentos do futebol – não havia um adversário devastador, mas um Atlético que traduz o que é ser competitivo nos dias de hoje.
Anular-se para fazer o mesmo com o oponente é o expediente de equipes estéreis, que só sabem lutar e rezar. O Chelsea é mais do que isso, independentemente das convicções de seu treinador. O direito a escolhas vive na companhia da exposição a críticas, como ocorre com o lutador que dança pelo ringue para fugir do alcance do rival. Alguns o qualificam como inteligente, outros o chamam de medroso.
No dia seguinte, Real Madrid e Bayern fizeram, aí sim, um duelo de propostas baseadas em suas respectivas qualidades. É um equívoco relacionar o jogo de espera-e-saída do time espanhol com a conduta do Chelsea. A equipe de Ancelotti enfrentou um adversário com quem é inútil discutir a posse, e investiu em seu caráter de especialista na transição. O Real Madrid tinha um plano, o Chelsea fingiu que tinha.
Curioso perceber que os times mais diferentes das semifinais da Liga dos Campeões pecaram no mesmo aspecto. Atlético e Bayern não souberam gerar perigo por intermédio da manutenção da bola, o que é muito mais grave para os alemães, expoentes do jogo de posse.
O futebol foi inventado para ser jogado. Há distintas maneiras de fazê-lo, todas dentro das regras. Também há como se negar a jogar e se esconder sob um argumento pragmático no qual só crê quem quer. Se o resultado é tudo o que você pretende, o que restará se ele não vier?

DOCUMENTO
Seria ótimo se pudéssemos debater os estilos de futebol praticados no Brasil. Melhor ainda se a conversa se baseasse em ideias de jogo que fossem identidades de clubes, mantidas por filosofia. Mas o resultado reina absoluto e as derrotas encerram trabalhos, enquanto poucos times se preocupam em ter um perfil próprio. Menos ainda se destacam por isso.

PERMANÊNCIA
No período do tricampeonato brasileiro, o São Paulo tinha um RG sob Muricy Ramalho. O mesmo se pode dizer sobre o Corinthians nos anos Tite. Dois casos em que se nota a relação entre os títulos e a permanência da comissão técnica por mais tempo do que a média no país. O Cruzeiro aparece como candidato a seguir esse caminho com Marcelo Oliveira.

FUTEBOL DE BOTÃO (POR SÉRGIO JR)

Apesar de fazer muito sucesso nos anos 80, o futebol de botão foi inventando no começo da década de 30 pelo brasileiro Geraldo Cardoso Décourt que foi um incansável divulgador e organizador de eventos de futebol de mesa, o que propiciou o seu desenvolvimento, assim como sua popularização. Futebol de mesa, o antigo futebol de botão fez a alegria da molecada, sendo amado e praticado com sua diversidade de regras e materiais. O jogo é praticado com botões apropriados que representam os jogadores e que são movidos com o auxilio de uma paleta, é praticado como um passatempo mas foi oficialmente reconhecido como esporte em 1988.
Mas o futebol, esporte mais popular do mundo, é quem foi o grande inspirador para a criação do futebol de mesa. Botões de qualquer tipo de roupa, casacos e camisas, foram as primeiras peças utilizadas para se jogar, por isso o nome de futebol de botão. Botões maiores se transformavam nos “zagueiros” e menores viravam “atacantes”, fazendo uma analogia com o futebol. Mais tarde, começaram a ser fabricados em plástico e acrílico, e até um acrílico mais duro que recebia a marca de Crystal, pois era de um acrílico mais forte e resistia bem mais aos pisões e cotoveladas sem querer que os jogadores menos cautelosos faziam.
Aos poucos todos queriam fazer coleções, os mais difíceis de conseguir, sempre vinham com uma ajuda da Placar, revista de esportes da época, que trazia em cada edição escudos para montar os jogos de botão, que eram vendidos sem escudo, com times do que seria a Série B do campeonato brasileiro hoje em dia, ou de times do interior paulista como Ferroviária, São José, etc. Além de ter um bom jogo de botão, era necessário ter o 'estrelão' direto no chão ou mesmo a mesa da Coluna (fabricante de brinquedos da época), que começou a ser fabricada no final dos anos 70 e era item caríssimo no começo dos anos 80. Mas o que fazia a alegria mesmo eram as travinhas amadoras, com times de plástico, jogados na maioria das vezes no próprio chão. Já os campeonatinhos dos amigos da rua eram jogados com estrelão às vezes com a bolinha redonda, a chamada, 'profissional' (quando não tinha, serviam as pecinhas do War mesmo).
Jogava-se inicialmente nas calçadas que passaram a ser os campos, riscava-se com giz o desenho do campo, porém não deslizavam muito bem e posteriormente passou a se jogar em pisos de cerâmica ou mármore até chegar às mesas de jantar, que eram grandes e não precisava se jogar agachado no chão. Após o reconhecimento como esporte, as modalidades passaram por um crescimento estrutural e conceitual sem precedentes. As federações estaduais se organizou e ganhou "status" profissional e atualmente, existe uma interligação estrutural entre os eventos promovidos pelas federações e as confederações.
Hoje, o Futebol de Mesa (também chamado de futmesa), encontra campeonatos estaduais individuais e por equipes (os grandes clubes de futebol também têm equipes participando, como Corinthians, Nacional, Palmeiras, Rio Branco e Santos no estado de São Paulo e América-RJ, Bangu, Flamengo, Fluminense, Olaria e Vasco no Rio de Janeiro), além das recentes Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro de clubes.
Não é difícil entender por que o jogo apaixona os mais velhos e os mais novos, aproxima pai e filho, traz os sonhos à tona e promove duelos inesquecíveis. O interessante é que, como o futebol era muito popular nos anos 80, não podiam faltar nas coleções, times que, embora hoje estejam um pouco esquecidos, disputavam as categorias principais na época, como Ponte Preta, América-RJ, Bangu, Santa Cruz, não havia um lançamento de jogos de botão que não contasse com esses times, além de Ceará e Guarani (campeão brasileiro em 78 e vice-campeão em 86) que recentemente voltaram à elite do futebol brasileiro e disputavam com força os campeonatos de futebol de botão na casa dos avós nos anos 80. Bons tempos...

ERRO FINAL - "APITO AMIGO"

Romualdo Arppi Filho, segundo árbitro brasileiro a apitar em uma decisão de Copa do Mundo, tinha uma maneira particular de dirigir jogos quando se aproximavam do final. Especialmente os que estavam empatados. “Em jogo zero a zero, comigo, a partir dos 30 minutos do segundo tempo, só valia golaço”, costuma dizer. O que significa que, para mudar o placar àquela altura, um jogador teria de fazer uma pintura de gol, pois o jogo seria conduzido pela arbitragem de forma a não correr risco. 
Risco de quê? De um gol irregular, decisivo, no fim. De ser responsabilizado pelo resultado. Árbitros têm pavor desse peso, incômodo que perdura por dias e prejudica carreiras. “É para evitar esse tipo de coisa que árbitros oram, acendem velas, ajoelham-se no vestiário”, conta um ex-árbitro brasileiro que tratava os minutos finais de suas atuações como um piloto de Fórmula 1 na última volta de uma corrida.

Máximo cuidado, nada pode dar errado. 
Para ele, não há erro mais grave do que o cometido pelo trio de arbitragem na decisão do Campeonato Carioca. “Não tem explicação ou defesa, e o jogo não tem salvação”, diz. Nem o jogo e nem o campeonato, decidido por um gol em impedimento, nos acréscimos do segundo 
tempo - fim da história.

A FIFA avalia arbitragens com notas de zero a dez. Determina que, se houver interferência no placar, o árbitro – ou assistente – não pode receber nota superior a sete. O mesmo critério é adotado pela Conmebol e pela CBF. É por isso que há árbitros que “gostam” de marcar pênaltis para o time que está vencendo. O jogo se resolve e ninguém reclama. 

Também é por isso que, em partidas que se encaminham para decisões por pênaltis, árbitros apressados soam o apito final antes que os acréscimos se encerrem. Aconteceu no mesmo domingo, no Pacaembu, em Santos x Ituano. “Medida de segurança”, explica o ex-árbitro. “E se sai um gol de mão?”.

HÁ ERRADOS 50 ANOS, O BRASIL JOGANDO SUA SORTE

Enquanto isso, em uma transmissão radiofônica há 50 anos…
- Apita o árbitro! Começa a peleja! O Brasil começa a atacar pela esquerda, mais uma vez… Temos jogado muito assim pro meu gosto! Sem muita organização, recua um pouca a bola e reinicia o jogo. Lá vem o Brasil de novo ao ataque! Bola da intermediária lançada na ponta esquerda se perde pela linha lateral! Muito forte o lançamento. O time está um tanto afobado, Aníbal!
- Lacerda, é preciso um pouco mais de comando do lado de fora. As ideias são boas. Tem como dar jogo. Mas é preciso tocar melhor a bola na intermediária. Ler melhor o jogo. Não dar tanto espaço para o contragolpe. Principalmente pela direita.
- Aliás, se permite o aparte, meu caro comentarista do povo, não só pela direita! Tem muito contragolpe também pelo centro. É por ali que as coisas realmente se definem. Os cabeças estão todos por ali!
- Desde os cabeças de área quanto muitos cabeças de bagres, meu caro Lacerda… O time precisa se ligar. Estar mais esperto para não se perder em alguma desatenção. Não pode sair feito louco ao ataque. Tem de negociar melhor a posse de bola na meiúca.
- A torcida se manifesta ruidosamente pelo Brasil. Mas não em uníssono. Muita gente quer mudar o comandante. A escalação do time também. Acho que estão corretos!
- Até mesmo o jeito de jogar. Não sei se é uma boa…
- Eu estou conjecturando que é melhor fechar a nossa retaguarda. Agora estamos levando muitos ataques pela esquerda. Acho que essa turma se aproveita de nossos meninos e os assedia com facilidade. Onde já se viu?
- Honestamente, acho que você está vendo forças ocultas onde não existem. Nosso time está mesmo desorganizado. Nosso comandante parece perdido. Meio frouxo. Mas não me parece hora de mudar. Talvez algumas peças. Alguns nomes. Mas ainda é o melhor jogo o que estamos jogando. Pode não ser o ideal. Mas é melhor tentar sair por todos os lados para frente do que fechar todo o time na defesa. Sem liberdade de movimentação e expressão.
- Eu não sei, não. Me parece que medidas radicais precisam ser tomadas. Este não é um Brasil que vai pra frente!
- Estamos há meia hora discutindo o que fazer com o Brasil porque o jogo foi parado inexplicavelmente. Agora parece que estamos entendendo o que aconteceu… Estão tirando do banco o nosso treinador? É isso? Mas no meio do jogo? Nem acabou a partida? Como é que pode isso? Onde vamos parar!?
- Entendo que as autoridades fizeram muito bem em restabelecer a ordem, o equilíbrio e a instituição canarinha. Nossa pátria não pode estar em jogo e ficar à mercê dos títeres internacionais!
- Mas assim não vale! Não pode. Como é que faz um negócio desse? O time não estava jogando mal. E não podemos jogar na vala comum e pelo esgoto o que o Brasil estava fazendo! Mal começou a partida. Isso é um risco muito grande! Desse jeito vamos acab
(Ruído forte e estranho interrompe a transmissão. Apenas o locutor volta ao ar. O comentarista está fora dela. Problemas técnicos são alegados. )
- Voltamos enfim. O jogo recomeça com mais ordem e disciplina. Lá vem o Brasiiiil! Sinto uma equipe mais aguerrida. Determinada. Mais pujante. Lá vem o time rival pela esquerda e… Isso mesmo! É assim que se faz! Nosso lateral-direito dá um retumbante pontapé no extremo-esquerdo oponente. Nas costas dele! O árbitro não viu e nada marcou. É assim que se joga! Vamos lá, Brasil! Eu te amo, meu Brasil! Meu coração é verde, amarelo, azul e anil! Combinação ainda mais linda com este gramado verde-oliva! Ninguém segura esse ataque brasileiro! Pra cima deles, Brasil! Vamos acabar com a oposição rival! Pra frente, Brasil!

A INTOLERÂNCIA PREVALECE!

Continuo impressionado com a estupidez humana, que parece não ter limite. Falta de educação, preconceitos, bairrismos, homofobia, agressividade, comentários e ataques que muitos fazem via redes sociais escondidos sob um suposto anonimato chamam a atenção. O mesmo suposto anonimato que muitos devem sentir no meio da multidão em grandes jogos de futebol, quando viram valentões. Enfim, segue abaixo o texto:
"Fico impressionado com o nível dos comentários em blogs, especialmente os de esporte, mas também os de política, já que ambos se misturam e envolvem paixões e fortes interesses, clubísticos ou partidários. Estupidez, falta de educação e intolerância prevalecem no cenário.
Pego como exemplo o caso do Bom Senso F.C., movimento de jogadores com propostas para mudar nosso futebol e que levantou duas importantes bandeiras, de reformulação do calendário nacional e implantação do fair play financeiro, ambas absolutamente legítimas. Uma parcela dos torcedores ficou irada com o grupo e extravasou sua irritação ou ódio mesmo nas redes sociais, hostilizando o movimento e alguns de seus líderes, especialmente o zagueiro Paulo André, que acabou saindo do Corinthians para se refugiar, não consigo encontrar outro termo, no futebol chinês.
Muitos dos comentários seguem na linha de que o atleta tem que se preocupar apenas em jogar bola, render bem em campo e justificar o salário que ganha, não discutir calendário ou fair play financeiro, que seriam da alçada dos cartolas. Como se esses estivessem interessados em mudar alguma coisa…
Não foram poucos os que passaram a xingar os jogadores, dizendo que ganham muito, não têm que usar transporte público, defendem apenas seus interesses, querem gozar de mais férias e ter maior pré-temporada e que não passam de uns privilegiados com uma agenda própria, como se houvesse algum problema nisso. Os insultos são inacreditáveis, inviabilizando inclusive a possibilidade de diálogo.
Continuo dizendo que se ganham bem, isso é ótimo pra eles. A questão é discutir se os clubes que aceitam pagar salários milionários, gastando fortunas com sua folha de pagamentos, inclusive para comissões técnicas com “professores” que fazem mais do mesmo, têm condições de banca-los. São os dirigentes, não os jogadores, que devem ser cobrados sobre a questão financeira. Basta ver o caso do Botafogo, cujos atletas têm feito protestos contra o atraso no pagamento de salários e passaram a ser chamados de mercenários por parte da galera depois da derrota de um mês atrás, pela Copa Libertadores.
É uma pena que a ira da torcida acabe dirigida para os atletas, como se fossem responsáveis por todas as mazelas de nosso futebol, quando não são. Quantas vezes Paulo André, enquanto esteve no Brasil e antes de sair de foco partindo para a Ásia, não foi questionado sobre assuntos que não eram de sua alçada nem da do Bom Senso? Foi o caso do imbróglio que marcou o final do Brasileiro do ano passado, com brigas de torcidas e definição do rebaixamento no tapetão. Queriam que ele se posicionasse a respeito e tomasse partido de A ou de B, quando não eram o zagueiro nem o movimento que deviam explicações, mas a CBF, como organizadora do campeonato, e os clubes, boa parte dos quais tem relação umbilical com suas organizadas, várias delas envoltas em casos policiais.
Atrás dos ataques vejo, além de intolerância e agressividade, grande inveja contra os que se dão bem nos gramados. Como se fosse errado faturar jogando bola. Vida de boleiro também é complicada…”

RIO DE JANEIRO 2016 E O PLANO B!

O Comitê Olímpico Internacional, que decidiu intervir na organização dos Jogos Olímpicos de 2016, insiste que não há plano B para o evento.Apesar de seus dirigentes afirmarem que a próxima Olimpíada será boa sem citar o nome da cidade que a abrigará, descartam mudança de sede mesmo para uma ou outra modalidade, como é o caso do basquete.
Diante das cogitações de que os jogos de basquete podem ser disputados em São Paulo, dado o atraso nas obras do complexo de Deodoro e outras mais, o COI diz que os Jogos de 2016 serão como os anteriores, centrados em uma cidade só, exceto o futebol, que é realizado em outros locais também.
O comitê espera, nos próximos dias, que o governo brasileiro se comprometa a colocar mais grana nos Jogos, que estão bem atrasados.
Lembra que não faltam reclamações das federações internacionais sobre a organização do evento, que vai de mal a pior.
O governo, por sua vez, teme que injetar mais recursos na Olimpíada gere revolta entre os brasileiros e especialmente os cariocas, que começam a questionar o legado do evento, assim como já fazem com o da Copa-14, que se tornou impopular do ano passado pra cá.
Mas o COI deve seguir pressionando as autoridades brasileiras, que ganharam o direito de receber a Olimpíada e se comprometeram a cumprir uma série de exigências.
O comitê tem batido na tecla de que foi o Rio que quis abrigar os Jogos, ou seja, que a Olimpíada não foi imposta goela abaixo de ninguém. Só que o clima mudou muito de quatro anos pra cá e hoje a situação é outra da de quando o Rio foi escolhido sede. Bem diferente. E a economia também.

E DEPOIS DA COPA?

Reproduzo, abaixo, coluna de João Carlos Assunção - colunista do jornal diário 'Lance!'...
“A organização ou a falta dela para a Copa de 2014 deveria servir de alerta para os que preparam o Rio e os esportes olímpicos para os Jogos de 2016. Porque, logo que acabar o Mundial, as atenções estarão, como nunca, voltadas à Olimpíada. E o que se vê é uma situação tão complicada quanto à da Copa.
Assim como acontece com a Fifa, a paciência do Comitê Olímpico Internacional com os brasileiros não é das maiores. O cenário mudou muito de quando o Rio foi escolhido sede dos Jogos, em 2009, para cá. Representantes do COI fizeram questão de mostrar seu descontentamento com o Brasil e o rumo da Olimpíada ainda no mês passado. Deixaram o país irritadíssimos com a indefinição em relação à matriz de responsabilidade, reclamando que quase metade das obras não tinha orçamento para ser discutido. O imbróglio culminou com a saída de Maria Silvia Bastos Marques da Empresa Olímpica Municipal. A explicação oficial foi que a executiva, que vinha sendo chamada de “prefeita da Olimpíada”, preferiu retomar suas atividades na iniciativa privada.
Estive em três Olimpíadas (Sydney-00, Atenas-04 e Pequim-08) e em cinco Copas do Mundo (México-86, Estados Unidos-94, França-98, Coreia/Japão-02 e Alemanha-06) e são eventos completamente distintos. Seja porque em Mundiais costumam ir torcedores apaixonados, em Jogos Olímpicos mais espectadores que fanáticos, seja porque a Copa é realizada em várias sedes enquanto a Olimpíada tem quase tudo concentrado em uma só, sendo a locomoção essencial, seja pelo número de países e modalidades envolvidas. E a tarefa do Rio é complicadíssima, porque, mais uma vez, tudo acaba ficando para a última hora. Se até a matriz de responsabilidade que define qual a parte do governo federal, do estadual e do municipal no financiamento das obras gerou tanta controvérsia, sendo adiada várias e várias vezes, imagine o “resto”
O tal do legado voltará com tudo à discussão, agora do carioca, que já tanto sofre com transporte público, insegurança, falta de atenção à saúde, descaso com a educação, além de outros itens. A questão da hotelaria e da mobilidade urbana estará novamente em pauta, atraindo holofotes para o bem ou para o mal. E lembranças incômodas, que poderiam ter servido de exemplo de como não se fazer as coisas, estarão de volta. É o caso do Engenhão, tido como o principal legado do Pan do Rio que acabou interditado por problemas estruturais, ou do próprio Maracanã, que era para estar adequado ao chamado padrão-Fifa ainda para o Pan de 2007, o que acabou não acontecendo.
Fora que há uma grande diferença com o futebol. A pressão por medalhas, claro, será menor do que a por um belo desempenho da Seleção no Mundial, mas as lacunas de cada uma das modalidades olímpicas estarão bem em evidência. E vale lembrar que elas são sustentadas por dinheiro público, verbas das loterias, recursos de estatais, que muitas vezes não sabem nem para onde vai a grana. O Banco do Brasil e a Confederação Brasileira de Vôlei que o digam. Mas não só eles...”

RESISTÊNCIA

O livro “O Corpo no Limite”, escrito há dez anos pelo médico americano Kenneth Kamler, documenta o que acontece com o organismo humano quando levado aos extremos de sua resistência. São experiências de um especialista em situações em que a sobrevivência é ameaçada por condições para as quais a evolução não nos preparou. Kamler esteve na altitude, no deserto, nas geleiras, no fundo do mar, acompanhando casos que comprovam que o corpo humano, por vezes tão frágil, é capaz de suportar as piores provações e se manter funcionando. A vida se apega a aliados surpreendentes e, contrariando as probabilidades, prevalece.
Se o futebol brasileiro fosse uma pessoa, Kamler se sentiria obrigado a adicionar ao livro um capítulo sobre o tratamento desumano que recebe e sua capacidade de seguir em frente. Um ser moribundo, cada vez mais privado de suas necessidades básicas, forçado a desempenhar seu papel como se nada lhe faltasse. A diferença para os episódios que o médico observou em ambientes inóspitos é que ele estava ali para ajudar com seu conhecimento e o que estivesse a seu alcance. Diante do nosso ente enfermo, Kamler se veria impotente e assustado.
Na semana de estreia do Campeonato Brasileiro de 2014, competição premium do futebol no país, times entraram e saíram da tabela de jogos da Série A por força de decisões da Justiça. O vexatório espetáculo dos auditores do STJD, um tribunal que julga o que quer, como quer, sem nenhum compromisso com a salvaguarda do jogo ou com o senso do ridículo, plantou em dezembro do ano passado a colheita que se faz agora. Os casos da Portuguesa e do Icasa têm em comum o mais absoluto desprezo da CBF pela governança do campeonato mais importante do Brasil. Nenhum organizador minimamente preocupado permite que seu produto seja exposto dessa forma. O Brasileirão é um cardíaco com dores no peito, à espera de atendimento no corredor do hospital, enquanto os médicos fazem um churrasco.
Na mesma semana, o comando da confederação passou de Marin/Del Nero para Del Nero/Marin. Há quem diga que a configuração que emergiu da eleição nada mais é do que a oficialização do que sempre ocorreu, com o presidente de direito (graças à data de nascimento) cumprindo ordens do presidente de fato, que agora acumula os cargos. Marin retorna ao posto de vice mais velho, especialidade de quem sempre viveu à espreita. Del Nero foi aclamado pelos clubes que o conhecem e o merecem. Crianças de meia idade que ainda moram com os pais e vivem de mesada. Imaturas, medrosas, incapazes.
O doente está sofrendo. O corpo grita e a cabeça dói, porque percebeu que o remédio não virá. Mas o doente perdeu o medo de reclamar. Nesta semana simbólica, ele falou por intermédio do meia Ruy, sem trabalho após a saída do Mixto da Copa do Brasil: “Agora, o pessoal da CBF… não vai faltar pão e não vai faltar café no café da manhã, porque eles estão de terno e gravata, estão sentados em cima de uma máquina que gira dinheiro, só que eles são uma cambada de incompetentes. Os caras não conseguem fazer um calendário digno em um país como esse”.

CAMISA 12

“A média dos estudantes brasileiros do curso secundário precisa ser mais ou menos reeducada com respeito a hábitos de trabalho e mesmo, em alguns casos, a hábitos de honestidade. A maioria dos rapazes brasileiros que completam o curso secundário nunca foi instruída sobre como estudar nem educada para arcar com as responsabilidades de um programa normal de estudos. A maior parte deles não sabe tirar proveito de uma biblioteca, ou fazer consultas, ou aproveitar um professor durante uma conferência particular. Muitos estudantes de cursos secundários também lucrariam consideravelmente em um ambiente escolar de perfeita honestidade e integridade, o qual, infelizmente, nem sempre existe nas escolas secundárias, mas que será um fato no Instituto Tecnológico da Aeronáutica.”
“O linguajar cauteloso de Smith, ao falar de “ambiente escolar de honestidade”, não deixava dúvidas de que ele se referia a uma praga presente em dez entre dez escolas brasileiras: a cola. Se entre nós costumava ser vista até como uma virtude, uma esperteza, no ITA a cola era imperdoável.”
O texto acima foi extraído do magistral “Montenegro”, de Fernando Morais (Editora Planeta do Brasil, ISBN8576652277).
Trata de uma carta, escrita em 1947, pelo professor Richard Herbert Smith, ex-chefe do Departamento de Engenharia Aeronáutica do MIT, contratado e trazido ao Brasil em 1945 para trabalhar na construção do ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica – um dos maiores centros de excelência em educação e conhecimento do Brasil.
E nela, o professor Smith, apesar do pouco tempo de Brasil, como comenta Fernando Morais, usa um “linguajar cauteloso” para tocar fundo em um ponto relevante da “alma” do aluno brasileiro que se matriculava no ITA.
Vejo muito disso na discussão sobre o gol do Flamengo, principalmente nos comentários ao seu post de segunda feira.
Eu já “ganhei” jogos com gols nos últimos minutos, já “perdi” jogos com gols nos últimos minutos. Futebol, como me ensinou meu velho pai, tem três resultados possíveis: ganha-se, perde-se, empata-se. E aí, convive-se com aquilo que se apresenta em campo.
Tenho PROFUNDO respeito pelo Flamengo. É um adversário, grandíssimo, fortíssimo, o tipo de adversário que faz as nossas conquistas serem maiores. Já “ganhei” jogos lindos contra o Flamengo, já “perdi” jogos horríveis para o Flamengo – naturalmente, imagino que os torcedores do Flamengo pensem nestas situações e tenham sentimentos exatamente opostos aos meus. Perder dói sim. Mas está longe, muito longe, de ser o tema mais importante desta conversa.
Creio que sejam dois temas relevantes:
1) “roubado é mais gostoso”, dito pelo goleiro do Flamengo, sucessor de um condenado por assassinato (aquele, do “quem nunca bateu em mulher?”).
2) O uso insistente e sistemático de argumentos para “relativizar” o erro da arbitragem.
Àqueles rubro-negros que “relativizam” o erro cometido no gol, relativizem também a sua revolta, quando forem assaltados na rua. Afinal, “o assaltante não teve oportunidades na vida, não teve educação e não tem chance de ser nada – só lhe resta fazer isso”. E, convenhamos, “o que é roubado é mais gostoso”.
Àqueles rubro-negros que “relativizam” o erro cometido no gol, relativizem também a absoluta falta de preparo e os danos causados por policiais corruptos, que, afinal de contas “ganham um salário de m… para correr atrás de vagabundo e têm mais é que levar alguma vantagem mesmo”.
Àqueles rubro-negros que “relativizam” o erro cometido no gol, relativizem também que a corrupção dos Detrans pelo Brasil ocorre devido aos baixos salários recebidos pelos seus servidores. E, quando perderem um pai, a esposa ou um filho em um acidente de trânsito provocado por alguém que comprou sua carteira de motorista, aplaquem sua revolta, afinal de contas, “quem nunca ‘quebrou um lance’ para acelerar uma renovação de carteira”?
Para fechar, fiz um pouco de pesquisa e gostaria de compartilhar três estatísticas:
a) Ranking de Países por Produto Inteno Bruto (fonte: ONU)

b) Ranking de Países por Índice de Qualidade de Vida (fonte: The Economist)

c) Ranking de Países por Índice de Percepção de Corrupção (fonte: Transparência Internacional) (NOTA: nesta tabela, a nota 100 é o máximo de percepção de limpeza, enquanto a nota 0 é o máximo de percepção de corrupção.)

Portanto, você, meu caro amigo rubro-negro, que está comemorando porque “ganhar roubado é mais gostoso”, ou que está “relativizando” o erro para justificar o injustificável, pense no seu papel diante do seu país, que é o 7° (sétimo) em produto interno bruto, o 39° (trigésimo-nono) em qualidade de vida e o 72° (septuagésimo-segundo) no ranking de “limpeza/corrupção”.
E pense em que tipo de influência a nossa colocação em corrupção não tem sobre a nossa qualidade de vida, apesar do enorme potencial do nosso PIB. Faz muito tempo que não choro por causa de futebol. Cheguei em casa no domingo à noite, depois de passar dia com minha mãe, minha mulher e nosso filho. E ali, no micro-cosmo daquela casa, daquele quarto, daquela cama, não se ganha roubado. Um forte abraço.