A COPA NÃO É DAS COPAS, É DAS EMOÇÕES

Pequenas coisas podem te emocionar em uma Copa do Mundo. Povos tão diversos, culturas várias, hábitos e crenças próprias, e a unidade humana de queixo erguido no meio disso. Esse laço, que trespassa as diferenças, é inquebrantável para os mais sensíveis. O desolamento do goleiro Akinfeev após a falha no gol sul-coreano dilacerou meu coração. Passei os minutos finais torcendo pela Rússia, pelo afago do destino no jogador. Queria vê-lo inteiro, erguido, aliviado. Pensei no quanto para ele era um sonho defender seu país na competição maior. Ali me senti seu parceiro, camarada, sem guerras frias e Sputniks a nos dividir. Eu era uma espécie de Raskolnikov, personagem célebre de Dostoievski, mordido pela culpa. A culpa humana. Minha compaixão com o sujeito nascido do outro lado do mundo, a solidariedade prevaleceu. O gol de Kerzhakov, admito, me deu paz à alma. Akinfeev, vi você de olhos cerrados no hino nacional. Tô contigo!
Enquanto era executado o hino nigeriano, meus olhos foram ficando marejados. Em meio àquele mar azul celeste e branco, sinal da invasão argentina a Porto Alegre, punhados de homens e mulheres vestidos de verde cantavam a plenos pulmões e agitavam pequenas bandeirinhas. Eu ouvi a alegria daquela imensa minoria de negros de um continente judiado que expressavam seu orgulho. Não entendi nada do que cantavam, mas senti tudo que sentiam. O símbolo daquilo era humano. O momento em que eles estavam na ribalta. Uma população de 175 milhões (estão admirados?) tendo voz. Minha emoção era de felicidade por eles poderem se expressar e ver seus heróis nacionais em campo. A fome, as guerras tribais e religiosas, nada daquilo era páreo em dado instante. Tô com vocês, meus amigos nigerianos!
É inadmissível para um jornalista esportivo dos tempos modernos, que deve conhecer até atletas do Campeonato da Tailândia, eu sei. Mas nunca tinha ouvido falar em Serey Die. No dia do jogo entre Costa do Marfim e Colômbia virei seu irmão de alma de imediato. Seu choro convulsivo no hino marfinense, com soluços, me arrepiou. Somo assim, bobinhos, os humanistas. Nos comovemos com pequenas imagens. Um homem também chora, e o faz quando pensa na sua terra, na sua gente, nas suas dores, na sua condição de ser vivente. As notas da canção pátria foram pesadas para seu coração. Mostrou-se gente como a gente. Não conteve a descarga de tanta emoção. Tô contigo, Serey Die!
Akinfeev, Serey Die e a torcida da Nigéria me emocionaram porque me fizeram, de alguma maneira, colocar em seus lugares. A frustração do goleiro, a comoção do volante e o orgulho de pertencimento da massa africana são sentimentos íntimos para nós, humanos. O local de nascimento é um detalhe perto das expressões que conhecemos e experimentamos no dia a dia aqui, na Rússia, na Costa do Marfim, na Nigéria ou em qualquer outro lugar. Não sei se está é a Copa das Copas, mas tem gerado emoção das emoções em corações sobressaltados. Isso fica até mais que os resultados em campo.

BRASIL, ESQUENTAI VOSSOS PANDEIROS!

O futebol está voltando pra casa, diz uma propaganda que martela de cinco em cinco minutos nossos ouvidos. Outra canta, na suavez voz de Fernanda Takai, para amarrarmos o amor nas chuteiras. Já me peguei assobiando melodiosamente o jingle patrioteiro. Até lembrei de Araken, o showman, e da cantiga que embalou a narração de Osmar Santos em 86: “Ginga pra lá, gol! Ginga pra cá, Brasil!” Tem ainda uma em que um grupo de italianos viram a casaca para o “Brasile” ao tomar conhecimento de promoção televisiva em caso de título verde-e-amarelo. E há o rapaz que, sortudo, rejeita uma bela moça por ela ser argentina ao pensar nas agruras que um relacionamento com ela traria. “Soy casado“, emenda ele, com os olhos desesperados. Isso para não falar da cabeça de Maradona apagada por controle remoto e das vinhetas abrindo alas para a Copa.

Pitadas de ironia aqui e uma bocado de patriotismo acolá. Nos lares, bares e outros lugares a Copa pegou, por osmose. O silêncio (ainda) das ruas contrasta com o frenesi comercial do Mundial. O torneio pode até não ter chegado com a força de outros tempos nos muros e janelas das cidades brasileiras, mas onde houver um televisor há a trombeta berrando: Pra frente, Brasil! É um grande negócio essa Copa do Mundo. Se grandes marcas torram as burras nisso – basta ver o que a CBF recebe de grana pelo patrocínio à Seleção – e emissoras fazem dos direitos de transmissão um chamariz grandiloquente é porque o apelo é crescente, não diminuto, como alguns suspeitam. Se o povo ainda não expressa euforia é porque está esperando o Carnaval chegar. As temidas (por Fifa e governo) manifestações surfarão na onda da visibilidade que a Copa dá. Elementar! Mas a paixão pela bola, misturada com certo orgulho nacional, fatalmente ficará à flor da pele quando a rede balançar.
O Brasil perdeu oportunidade rara, com os olhos do mundo voltados para cá e os negócios fervilhando, é verdade. Isso tem que ser dito e cobrado nas ruas e nas urnas. A festa do futebol, porém, merece seu crédito. Nada de ignorar desvios, promessas não cumpridas e uma série de avacalhações. Que esteja no caderno da mente como lição para um futuro melhor e mais engajamento no bem coletivo. Mas nada de dar uma bicuda para escanteio na paixão pelo esporte. Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar estarão entre nós. Rivalidades estarão entre nós. A chance única de ver um Mundial em nossas terras se concretiza logo ali. Um povo essencialmente festeiro não vai dar de costas agora.
A vida não se resume a festivais nem Mundiais, bem sei meu caro Geraldo Vandré. Posto isso, não custa pensar que assim como nos anos 60 plateias se apinhavam para ver as novas lendas Chico, Caetano, Gil, Roberto e outros, agora novas multidões nossas se reunirão para ver e torcer. A emoção que faz do futebol um bem cultural, um patrimônio da humanidade, é muito forte, prevalece. Não precisamos das propagandas e das vinhetas, elas apenas antecipam o natural.

A EVOLUÇÃO AINDA QUE TARDIA

Caros amigos leitores, é um prazer escrever novamente pra a sua leitura. Ainda mais na centésima coluna deste charmoso blog. E a matéria não poderia ser diferente e ainda ressalta um quesito importante na história do Higienópolis F. M. e de seu técnico fundador.
Eu jogo futebol de mesa desde 1987, quando tinha meus 07 anos - por influência de meu pai e meus tios... Em 1989 nasceu meu irmão, que  aos 05 anos também teve incentivos para jogar e era meu companheiro e adversário no futebol de mesa. Eu seguia procurando novas amizades para jogar e procurei lugares aonde organizava campeonatos para jogar. Porém, só obtive sucesso no final de 2001 e início de 2002 - quando me afiliei em um clube e me federei.
Comecei em março de 2002 a disputar torneios oficiais e a conhecer novos amigos e outros clubes que há departamento de futebol de mesa. Eu era imaturo, inexperiente, meio travado em relação aos que jogavam, pois eles já tinham 'bagagem' e experiência. É certo que, ao longo do tempo, fui me tornando mais experiente, mais 'cascudo'. Mas não concentrava, não focava nos jogos, só queria bagunça... E assim sendo ao longo dos anos. Passei por alguns poucos clubes e desde o início de 2012 entrei para a família River F. C.. Um celeiro de craques e uma bela família, o que torna o ambiente muito agradável.
Desde 2002 até 2012, sempre levei mais na brincadeira do que a sério. Pois o mais importante era encontrar os amigos, papear, brincar... Mas entrando para a família riverense, percebi que posso fazer isso tudo levando a sério os jogos e os torneios, oficiais ou não. E a prova disso são as estatísticas. Em 2013 tive desempenho - nos treinamentos internos - melhor do que em 2012 e terminei o Campeonato Estadual (RJ) em 22º lugar, tendo o melhor desempenho desde 2002 - quando comecei. E ainda fiquei dois anos afastado, entre 2009 e 2011. Nesta temporada 2014, o desempenho em 06 meses está superando aos desempenhos de temporadas anteriores e poderá superar ao desempenho da temporada 2013. Ao menos, a média de gols pró já é a melhor de todos os tempos e assim manteremos até o fim.
O segredo é manter o foco, a dedicação e a concentração, treinar bastante e jogar o máximo de jogos possíveis. Assim, a tendência é evoluir tecnicamente e resultados aparecerão naturalmente. E estamos evoluindo mesmo que tardiamente, mas estamos. E só tenho a agradecer aos meus companheiros de clube. Em especial ao meu grande mestre Marcinho e ao meu grande amigo Márcio Maia, pelos conselhos e pelas dicas.

JÁ PENSOU?

Você já deve ter se surpreendido pensando se a Argentina vai ganhar esta Copa. Claro que pensou. Depois do sorteio dos grupos, quando ficou estabelecido que poderia acontecer uma final entre Brasil e Argentina, você pensou nessa final. Você imaginou essa final. Talvez você tenha desejado essa final.
Então você visualizou uma vitória do Brasil no Maracanã, e, imediatamente depois, algo desagradável fez seu cérebro mudar de assunto. Mas foi o suficiente para deixar uma sensação ruim, como os últimos instantes antes de acordarmos de um pesadelo. Você pensou em uma… Você sabe.
Foi neste momento que você passou a procurar razões para se convencer de que aquela possibilidade – é, aquela – era um devaneio, um surto. “Eles só têm um jogador…”, “a defesa não é confiável…”, “eles nem chegarão à decisão…”. Nada como o pensamento otimista para limpar a mente, não?
O fato é que você continua pensando e nem sabe direito por quê. Afinal, convenhamos, “eles” não deram motivo para ser considerados uma ameaça clara e presente. O “único jogador” está longe de decepcionar, é fato, mas ainda não encarnou Maradona. Não é o nome da Copa, é? Pois é, quer dizer, ainda não. Como Ruud Gullit disse outro dia na televisão, “eles têm os melhores jogadores e o pior time”. Combinação intrigante.
Ao ver o jogo contra a Argentina 2 x 1 Suíça, você voltou a pensar em tudo e não resolveu nada. A Argentina poderia ter perdido, mas ganhou. Poderia ter sofrido o empate no final da prorrogação, mas a trave não deixou. E você sabia como seria o gol, quem estaria envolvido, etc e etc. Tanto que, na hora, sua reação foi a de quem já tinha visto aquele lance. Estranho.
O time parece um projeto não finalizado, com defeitos que não são compatíveis com o brilho que você sabe onde está, mas nem sempre enxerga. Gullit também disse que “a Argentina só pode melhorar, e se isso acontecer…”. Por isso os pensamentos vêm e vão.

HIGIENÓPOLIS FM ENTRA PARA A HISTÓRIA DO RIVER F. C. (RJ)

Caros leitores, é um prazer escrever para a sua leitura. No último dia 23 de Junho de 2014, o River Futebol Clube - localizado no subúrbio da capital fluminense - completou 100 anos. Com muita honra estamos na história deste saudoso e charmoso clube, pois desde o início de 2012 fazemos parte do seu quadro de atletas.
As comemorações pelo seu centenário aconteceram no dia 22 de junho de 2014, com um delicioso café da manhã, um farto churrasco e nossa copa interna, a Copa River. E terminei na nona colocação nesta citada copa. Foi uma festa linda, com a presença do atual presidente e de ex-presidentes do clube, sócios, atletas e amigos que frequentam o clube.
Estavam presentes as pessoas que fazem do dia a dia do clube tornar-se algo prazeroso, construindo o ambiente familiar peculiar deste charmoso clube. O River F. C. é considerado um dos grandes clubes do futebol de mesa, pois temos uma equipe forte, homogênea e que sempre briga por títulos nas competições que participa, tanto individualmente quanto por equipes. Nossa equipe se renova, mas sempre mantendo a base.
Posso dizer, em nome da equipe de futebol de mesa, com toda a certeza e gratidão, que temos um imenso orgulho de representar este maravilhoso clube, onde gente de ótima qualidade o administra e já o administrou. E podemos afirmar que, na equipe do futebol de mesa, quando não conseguimos estar num dia bem, tecnicamente, levamos no peso da camisa. Pois os adversários tremem ao ver nosso uniforme quando vão nos enfrentar, mesmo que eles não assumam isso.
Somos a família riverense com muito orgulho! Tremem as mesas quando chegamos, adversários sufocados de medo ao ver nosso manto sagrado em nossos corpos! Éééééééé, River! Valendooooô!

JAMES RODRÍGUES, O NOVO CARA DO FUTEBOL MUNDIAL

Aos 22 anos, ele já é o maior goleador da história da Colômbia em Copas e venceu mais partidas do que a sua seleção havia vencido até aqui. no próximo jogo vem o Brasil. Ele vai continuar nessa toada?
A marcação cerrada exercida pelos dois volantes uruguaios, Arevalo e Álvaro Gonzales, surtia efeito até os 28 minutos do primeiro tempo. James Rodríguez, estrela dos três primeiros jogos da Colômbia, até alcançava a bola, mas não conseguia fazer com que ela chegasse a Téofilo Gutiérrez e Jackson Martínez, os dois atacantes escalados por José Pekerman para o duelo deste sábado.
Até que, em uma bola espirrada, James mata a bola no peito e bate de sem-pulo, em uma bola que tinha o ângulo esquerdo de Muslera como alvo. O uruguaio ainda conseguiu desviá-la, mas ela bateu na trave e entrou, estufando a rede do Maracanã. Um golaço, um dos mais bonitos da Copa.
James (pronuncia-se Rames) tem 22 anos. É meia do Mônaco-FRA, mesmo clube de Falcao García, cortado às vésperas da Copa por não se recuperar a tempo de uma ruptura do ligamento anterior cruzado do joelho esquerdo. Como já dissemos em ocasiões anteriores, como no jogo contra a Costa do Marfim, ele não sentiu o peso de substituir um protagonista e é, até aqui, o melhor jogador deste Mundial. Mais: com os dois gols de hoje, superou Neymar e Messi e assumiu a artilharia do torneio.
“Eu o conheço desde sua passagem pela Argentina”, disse o técnico derrotado, o uruguaio Óscar Tabárez. Deve ter ficado impressionado, já que a passagem de James Rodríguez pelo Banfield, de Buenos Aires, aconteceu entre os seus 17 e 19 anos – em seguida, ele foi negociado com o Porto, antes de chegar ao futebol francês. “Ele era apresentado como um talento do futebol. Talentos são aqueles que fazem o que conhecem sem ter uma experiência de vida. São como Maradona, Messi, Suárez. Ele tem um dom. E pude ver hoje que é um grande goleador”, disse o treinador.
James já é o maior goleador da história da Colômbia em Copas e conquistou, com o time cafetero, 12 pontos, que superam os 11 conquistados por sua seleção nos quatro Mundiais anteriores. É, sem dúvida, uma campanha inesquecível. “Estamos fazendo história”, disse, ao ser eleito pela terceira vez o jogador da partida. “É um sonho o que estamos vivendo e queremos chegar mais longe.”
Além do golaço, Rodríguez ainda faria outro, de raro oportunismo, ao ser servido de cabeça por Cuadrado, após belo lançamento de Armero. Na primeira fase, já havia sido eleito pela Fifa como o jogador com melhores números dentro de campo, em um critério mais técnico do que plástico.
O próximo desafio de James Rodríguez é contra os donos da casa, o Brasil. Ele não teme o desafio. “Não sinto pressão. É claro que temos que tomar cuidado porque eles têm bons jogadores e jogam bem. Mas nós também temos um bom time. Vai ser um jogo lindo”, afirmou.
José Pekerman, o argentino que treina a Colômbia, confia em James para que o time continue com o bom rendimento – são quatro vitórias em quatro jogos. “James sempre aparece nos jogos lutando bravamente. Na minha grande experiência como treinador, eu já tive jogadores de grande nível técnico. Apostei em James porque tem qualidades incríveis e não tem medo de assumir responsabilidades, o que muitos levam tempo para perceber. É um jogador técnico e tem tudo o que um atleta de primeiro nível precisa ter. Nunca tive dúvidas de que esta seria a Copa de James.”

ARTILHEIROS, NEYMAR E MESSI TÊM NÚMEROS EQUIVALENTES NA COPA

Estrelas da Copa e do Barcelona, Neymar e Messi vêm correspondendo e jogando o fino nesse mundial. Artilheiros da primeira fase com 4 gols em 3 jogos, os craques de Brasil e Argentina largam na frente pela Chuteira de Ouro da Copa.


Além do mesmo número de gols nesses três jogos, Neymar e Messi vêm mostrando um desempenho parecido nas estatísticas. Enquanto o atacante argentino finalizou mais, passou melhor e perdeu menos bolas, Neymar acertou mais chutes a gol, cruzou mais e correu mais em campo.
Autor de 4 dos 6 gols da Argentina na 1ª fase, Messi fez 67% dos gols da equipe de Alejandro Sabella. Um deles de falta. Já Neymar marcou 4 dos 7 gols do time de Felipão no mundial, ou 57% dos gols da seleção brasileira.
Nas faltas, Neymar recebeu mais do que o Messi nessa primeira fase (9 x 6). Porém, o brasileiro bateu um pouco a mais (3 x 1), além de ter um cartão amarelo contra nenhum do argentino. Confira abaixo os números de Neymar e Messi ao final da primeira fase da Copa do Mundo de 2014.


CLIMA DE COPA DO MUNDO

Olá, amigos leitores. Não escrevo no blog há exato 01 mês, confesso que o clima da Copa do Mundo me contagiou... Acompanho diariamente as resenhas da Copa, o que me deixou com certa preguiça e me afastou das escrituras deste blog. Então, ainda no clima da Copa, estou aqui escrevendo novamente...
FASE ORAL
Mesmo excluindo a reação esquizofrênica de setores da mídia inglesa, que parecem não resistir a um desejo de vingança que está longe de ser seu papel, o episódio Suárez-Chiellini é, por desgraça, o grande fato desta Copa. E não por se tratar de uma agressão durante um jogo decisivo, com todas as interpretações e repercussões que essas situações geram. Mas pelo tipo de violência envolvido. 
Estamos acostumados a ver jogadores se assaltando em campo. Chutes, tapas, socos, cotoveladas, cabeçadas, até cusparadas – que não ferem, mas enojam e insultam – são parte integrante de um esporte de contato, que é feito de intimidação e imposição física tanto quanto de dribles e gols. 
Mas mordidas? Mordidas, não. Consideramos o uso dos dentes para atacar alguém um ato incivilizado, selvagem. Crianças são ensinadas, bem cedo na vida, a não morder outras crianças. Animais domésticos, programados de outra maneira pela natureza, são penalizados quando perdem o controle. 
Se Suárez tivesse agredido Chiellini de forma “convencional”, com consequências até mais graves do que uma dentada pode causar, o choque e o clamor por punição seriam mais brandos. E se não fosse a terceira vez, claro, a defesa do atacante uruguaio teria maiores chances de sucesso. 
Além de um colossal jogador de futebol, Luis Suárez é um ser humano de quem seus próximos só falam bem. Mas não é necessário ter formação específica para perceber que há temas nos quais ele precisa de auxílio profissional. Os mecanismos que o levam a esse tipo de comportamento não serão desligados sem o devido tratamento. 
Isso é muito mais importante do que o tamanho da suspensão que lhe será aplicada, ou o impacto de sua ausência – obviamente grave – para a seleção uruguaia. Aqueles que estão a seu lado deveriam utilizar, no sentido de ajudá-lo, a mesma energia que gastam para defendê-lo. Pois voltará a acontecer.
PRINCÍPIOS
Os japoneses, dentro e fora do campo, protagonizaram as cenas mais significativas da fase de grupos da Copa. Primeiro, os torcedores que não deixaram a Arena das Dunas antes de retirar todo o lixo que produziram durante o empate com a Grécia. Depois, os jogadores, ao fazer reverência aos compatriotas que presenciaram a derrota para a Colômbia. Bravo.

OS ENCANTOS DA PROPAGANDA COMERCIAL

O comercial de refrigerantes apresenta as semelhanças entre a vida e um jogo de futebol. O nascimento e a subida ao campo, o amor e o calor da recepção. Os primeiros anos e os primeiros minutos, fases sonoras e de pura eletricidade. A ilusão, o otimismo, a sensação de invencibilidade que nos domina durante a adolescência e nos movimentos iniciais de nosso time em campo.

O amadurecimento traz a identificação da oportunidade, a noção de que há momentos que surgem apenas uma vez, como uma chance de gol. A segunda metade de nossa existência, como o segundo tempo de uma partida, é a hora das mudanças, da experiência e das realizações. Já perto do fim, é quando olhamos para o relógio. Quando nos faltam pernas, mas não coração. “Porque na vida”, diz o texto, “como em uma partida da Argentina, se pode ganhar ou perder. Mas o mais importante é deixar tudo em campo”.
O comercial de cerveja faz um aviso. “Esperamos por muito tempo este encontro”, diz a narração, “então é bom que saibam com quem vão se encontrar”. E passa a apresentar os jogadores que virão disputar a Copa. O menino que tomou injeções para crescer e jogar o Mundial, o centroavante que nasceu na França mas escolheu a Argentina, o meia que está diante da última chance, o atacante que todos conhecem e temem. O texto menciona “um país que não dorme por este sonho”, “o povo que inventou algo melhor do que o futebol: o amor pelo futebol”. E encerra: “vão se encontrar com tudo isso”.
O comercial de refrigerantes nos faz olhar para dentro e nos reconecta aos mais primordiais sentimentos. O comercial de cerveja consegue o feito de aproximar seres aparentemente inatingíveis de pessoas comuns, o que nada mais é do que a razão deste jogo existir. Enquanto um nos arrebata com imagens emocionantes e nos transporta para a tela, o outro nos arrepia e nos relembra do que é torcer. As campanhas argentinas, a cada quatro anos, vencem a Copa do Mundo da publicidade por goleada.
É um conteúdo que inspira. Algo bem distante das musiquinhas que não comovem, do humor que não faz rir, das mulheres com pouca roupa ou do apelo aos guerreiros. Caminhos que povoam nossas telas. Sim, há conotação patriótica exagerada tanto lá como aqui, mas não é disso que estamos falando. O ponto é o uso das imagens e das palavras para estabelecer uma conexão. O ponto é o conceito que nos põe em contato com as razões pelas quais gostamos de futebol.
Há uma razão para ser assim e esse é o aspecto mais preocupante. As mundialmente famosas agências brasileiras estão repletas de profissionais de extremo talento, o que elimina um problema de criatividade. As marcas que se associam à Seleção encomendam peças a peso de ouro, portanto também não é uma questão de orçamento. E como tudo está baseado em pesquisa, a conclusão é que temos o que queremos. Ou o que merecemos.

Deveríamos ser melhores, especialmente em um ano de Copa em casa, em que a oportunidade de falar de futebol está 24 horas por dia no ar.

O RESUMO DA LIGA

O Atlético de Madrid não foi o maior derrotado neste sábado em Lisboa.
Não ter conquistado a Liga dos Campeões da Uefa, por mais doído, é algo que não pode ser considerado um fracasso na temporada fantástica que o clube fez.
Em nome da leveza, os grandes derrotados nesta decisão foram os jornalistas cujos textos estavam prontos no momento do gol de Sergio Ramos, aos 48 minutos do segundo tempo.
O branco que brilhava nas telas de seus computadores já era, ali, o claro retrato da noite em que o Real Madrid (4x1: Godín, Ramos, Bale, Marcelo e Ronaldo) se tornou campeão europeu pela décima vez.
O empate nos acréscimos fez mais do que igualar o marcador e determinar outra meia hora de futebol. Estabeleceu a justiça que o jogo nem sempre respeita, inverteu o estado de ânimo dos times em campo e de seus torcedores, mostrou ao Madrid o caminho que esteve fechado durante quase toda a partida.
Pois àquela altura, o time de Ancelotti estava aberto, disposto a correr todos os riscos, lidando com as próprias dificuldades de ser produtivo no ataque posicionado.
O gol não saiu em uma criativa associação entre jogadores ofensivos. Nem foi produto do brilho individual que caracteriza o elenco do time branco. Foi em uma cobrança de escanteio, com o cabeceio de um defensor, como tantas e tantas vezes o Atlético de Madrid comemorou neste ano.
Desta vez, Simeone e seus seguidores experimentaram o lado que lamenta.
Foi como se o 1 x 1 libertasse o Madrid dos efeitos da perseguição a um troféu que o iludia há muito tempo. “La décima”, a taça que parecia proibida depois que Godín cabeceou a bola por cima de um errático Casillas e abriu o placar na Luz, ressurgiu no horizonte quando o tempo se esvaía.
Enquanto o Real Madrid dobrou de tamanho para jogar a prorrogação, o Atlético murchou. O hábito de minimizar problemas e encontrar um meio de tirá-los do caminho, perfil dos recém-coroados campeões da Espanha, teria de encontrar uma situação insolúvel. Ela foi finalmente imposta pela jogada de Dí Maria pela esquerda, concluída pelo toque de cabeça de Bale.
Mais dois gols seriam celebrados pela parte branca do estádio. Um de Marcelo e outro de Ronaldo, de pênalti. Gols que serão lembrados e comentados, mas que devem suas existências à bola que Ramos enviou à rede lateral de Courtois.
Na lateral, Ancelotti só abriu o sorriso dos campeões após o gol que levou Marcelo às lágrimas dos injustiçados. O italiano abraçou Zidane para saborear mais um título europeu em sua conta.
Ancelotti herdou um time atormentado e o converteu em um vencedor. Ele faz jus ao aplauso por conduzir o Madrid ao dia em que a espera terminou. Talvez seja o maior título de uma carreira condecorada, de um técnico que trabalha em silêncio para entregar vitórias sonoras.
A décima conquista europeia do Real Madrid está nas mãos de quem a merece.