JAMES RODRÍGUES, O NOVO CARA DO FUTEBOL MUNDIAL

Aos 22 anos, ele já é o maior goleador da história da Colômbia em Copas e venceu mais partidas do que a sua seleção havia vencido até aqui. no próximo jogo vem o Brasil. Ele vai continuar nessa toada?
A marcação cerrada exercida pelos dois volantes uruguaios, Arevalo e Álvaro Gonzales, surtia efeito até os 28 minutos do primeiro tempo. James Rodríguez, estrela dos três primeiros jogos da Colômbia, até alcançava a bola, mas não conseguia fazer com que ela chegasse a Téofilo Gutiérrez e Jackson Martínez, os dois atacantes escalados por José Pekerman para o duelo deste sábado.
Até que, em uma bola espirrada, James mata a bola no peito e bate de sem-pulo, em uma bola que tinha o ângulo esquerdo de Muslera como alvo. O uruguaio ainda conseguiu desviá-la, mas ela bateu na trave e entrou, estufando a rede do Maracanã. Um golaço, um dos mais bonitos da Copa.
James (pronuncia-se Rames) tem 22 anos. É meia do Mônaco-FRA, mesmo clube de Falcao García, cortado às vésperas da Copa por não se recuperar a tempo de uma ruptura do ligamento anterior cruzado do joelho esquerdo. Como já dissemos em ocasiões anteriores, como no jogo contra a Costa do Marfim, ele não sentiu o peso de substituir um protagonista e é, até aqui, o melhor jogador deste Mundial. Mais: com os dois gols de hoje, superou Neymar e Messi e assumiu a artilharia do torneio.
“Eu o conheço desde sua passagem pela Argentina”, disse o técnico derrotado, o uruguaio Óscar Tabárez. Deve ter ficado impressionado, já que a passagem de James Rodríguez pelo Banfield, de Buenos Aires, aconteceu entre os seus 17 e 19 anos – em seguida, ele foi negociado com o Porto, antes de chegar ao futebol francês. “Ele era apresentado como um talento do futebol. Talentos são aqueles que fazem o que conhecem sem ter uma experiência de vida. São como Maradona, Messi, Suárez. Ele tem um dom. E pude ver hoje que é um grande goleador”, disse o treinador.
James já é o maior goleador da história da Colômbia em Copas e conquistou, com o time cafetero, 12 pontos, que superam os 11 conquistados por sua seleção nos quatro Mundiais anteriores. É, sem dúvida, uma campanha inesquecível. “Estamos fazendo história”, disse, ao ser eleito pela terceira vez o jogador da partida. “É um sonho o que estamos vivendo e queremos chegar mais longe.”
Além do golaço, Rodríguez ainda faria outro, de raro oportunismo, ao ser servido de cabeça por Cuadrado, após belo lançamento de Armero. Na primeira fase, já havia sido eleito pela Fifa como o jogador com melhores números dentro de campo, em um critério mais técnico do que plástico.
O próximo desafio de James Rodríguez é contra os donos da casa, o Brasil. Ele não teme o desafio. “Não sinto pressão. É claro que temos que tomar cuidado porque eles têm bons jogadores e jogam bem. Mas nós também temos um bom time. Vai ser um jogo lindo”, afirmou.
José Pekerman, o argentino que treina a Colômbia, confia em James para que o time continue com o bom rendimento – são quatro vitórias em quatro jogos. “James sempre aparece nos jogos lutando bravamente. Na minha grande experiência como treinador, eu já tive jogadores de grande nível técnico. Apostei em James porque tem qualidades incríveis e não tem medo de assumir responsabilidades, o que muitos levam tempo para perceber. É um jogador técnico e tem tudo o que um atleta de primeiro nível precisa ter. Nunca tive dúvidas de que esta seria a Copa de James.”

ARTILHEIROS, NEYMAR E MESSI TÊM NÚMEROS EQUIVALENTES NA COPA

Estrelas da Copa e do Barcelona, Neymar e Messi vêm correspondendo e jogando o fino nesse mundial. Artilheiros da primeira fase com 4 gols em 3 jogos, os craques de Brasil e Argentina largam na frente pela Chuteira de Ouro da Copa.


Além do mesmo número de gols nesses três jogos, Neymar e Messi vêm mostrando um desempenho parecido nas estatísticas. Enquanto o atacante argentino finalizou mais, passou melhor e perdeu menos bolas, Neymar acertou mais chutes a gol, cruzou mais e correu mais em campo.
Autor de 4 dos 6 gols da Argentina na 1ª fase, Messi fez 67% dos gols da equipe de Alejandro Sabella. Um deles de falta. Já Neymar marcou 4 dos 7 gols do time de Felipão no mundial, ou 57% dos gols da seleção brasileira.
Nas faltas, Neymar recebeu mais do que o Messi nessa primeira fase (9 x 6). Porém, o brasileiro bateu um pouco a mais (3 x 1), além de ter um cartão amarelo contra nenhum do argentino. Confira abaixo os números de Neymar e Messi ao final da primeira fase da Copa do Mundo de 2014.


CLIMA DE COPA DO MUNDO

Olá, amigos leitores. Não escrevo no blog há exato 01 mês, confesso que o clima da Copa do Mundo me contagiou... Acompanho diariamente as resenhas da Copa, o que me deixou com certa preguiça e me afastou das escrituras deste blog. Então, ainda no clima da Copa, estou aqui escrevendo novamente...
FASE ORAL
Mesmo excluindo a reação esquizofrênica de setores da mídia inglesa, que parecem não resistir a um desejo de vingança que está longe de ser seu papel, o episódio Suárez-Chiellini é, por desgraça, o grande fato desta Copa. E não por se tratar de uma agressão durante um jogo decisivo, com todas as interpretações e repercussões que essas situações geram. Mas pelo tipo de violência envolvido. 
Estamos acostumados a ver jogadores se assaltando em campo. Chutes, tapas, socos, cotoveladas, cabeçadas, até cusparadas – que não ferem, mas enojam e insultam – são parte integrante de um esporte de contato, que é feito de intimidação e imposição física tanto quanto de dribles e gols. 
Mas mordidas? Mordidas, não. Consideramos o uso dos dentes para atacar alguém um ato incivilizado, selvagem. Crianças são ensinadas, bem cedo na vida, a não morder outras crianças. Animais domésticos, programados de outra maneira pela natureza, são penalizados quando perdem o controle. 
Se Suárez tivesse agredido Chiellini de forma “convencional”, com consequências até mais graves do que uma dentada pode causar, o choque e o clamor por punição seriam mais brandos. E se não fosse a terceira vez, claro, a defesa do atacante uruguaio teria maiores chances de sucesso. 
Além de um colossal jogador de futebol, Luis Suárez é um ser humano de quem seus próximos só falam bem. Mas não é necessário ter formação específica para perceber que há temas nos quais ele precisa de auxílio profissional. Os mecanismos que o levam a esse tipo de comportamento não serão desligados sem o devido tratamento. 
Isso é muito mais importante do que o tamanho da suspensão que lhe será aplicada, ou o impacto de sua ausência – obviamente grave – para a seleção uruguaia. Aqueles que estão a seu lado deveriam utilizar, no sentido de ajudá-lo, a mesma energia que gastam para defendê-lo. Pois voltará a acontecer.
PRINCÍPIOS
Os japoneses, dentro e fora do campo, protagonizaram as cenas mais significativas da fase de grupos da Copa. Primeiro, os torcedores que não deixaram a Arena das Dunas antes de retirar todo o lixo que produziram durante o empate com a Grécia. Depois, os jogadores, ao fazer reverência aos compatriotas que presenciaram a derrota para a Colômbia. Bravo.

OS ENCANTOS DA PROPAGANDA COMERCIAL

O comercial de refrigerantes apresenta as semelhanças entre a vida e um jogo de futebol. O nascimento e a subida ao campo, o amor e o calor da recepção. Os primeiros anos e os primeiros minutos, fases sonoras e de pura eletricidade. A ilusão, o otimismo, a sensação de invencibilidade que nos domina durante a adolescência e nos movimentos iniciais de nosso time em campo.

O amadurecimento traz a identificação da oportunidade, a noção de que há momentos que surgem apenas uma vez, como uma chance de gol. A segunda metade de nossa existência, como o segundo tempo de uma partida, é a hora das mudanças, da experiência e das realizações. Já perto do fim, é quando olhamos para o relógio. Quando nos faltam pernas, mas não coração. “Porque na vida”, diz o texto, “como em uma partida da Argentina, se pode ganhar ou perder. Mas o mais importante é deixar tudo em campo”.
O comercial de cerveja faz um aviso. “Esperamos por muito tempo este encontro”, diz a narração, “então é bom que saibam com quem vão se encontrar”. E passa a apresentar os jogadores que virão disputar a Copa. O menino que tomou injeções para crescer e jogar o Mundial, o centroavante que nasceu na França mas escolheu a Argentina, o meia que está diante da última chance, o atacante que todos conhecem e temem. O texto menciona “um país que não dorme por este sonho”, “o povo que inventou algo melhor do que o futebol: o amor pelo futebol”. E encerra: “vão se encontrar com tudo isso”.
O comercial de refrigerantes nos faz olhar para dentro e nos reconecta aos mais primordiais sentimentos. O comercial de cerveja consegue o feito de aproximar seres aparentemente inatingíveis de pessoas comuns, o que nada mais é do que a razão deste jogo existir. Enquanto um nos arrebata com imagens emocionantes e nos transporta para a tela, o outro nos arrepia e nos relembra do que é torcer. As campanhas argentinas, a cada quatro anos, vencem a Copa do Mundo da publicidade por goleada.
É um conteúdo que inspira. Algo bem distante das musiquinhas que não comovem, do humor que não faz rir, das mulheres com pouca roupa ou do apelo aos guerreiros. Caminhos que povoam nossas telas. Sim, há conotação patriótica exagerada tanto lá como aqui, mas não é disso que estamos falando. O ponto é o uso das imagens e das palavras para estabelecer uma conexão. O ponto é o conceito que nos põe em contato com as razões pelas quais gostamos de futebol.
Há uma razão para ser assim e esse é o aspecto mais preocupante. As mundialmente famosas agências brasileiras estão repletas de profissionais de extremo talento, o que elimina um problema de criatividade. As marcas que se associam à Seleção encomendam peças a peso de ouro, portanto também não é uma questão de orçamento. E como tudo está baseado em pesquisa, a conclusão é que temos o que queremos. Ou o que merecemos.

Deveríamos ser melhores, especialmente em um ano de Copa em casa, em que a oportunidade de falar de futebol está 24 horas por dia no ar.

O RESUMO DA LIGA

O Atlético de Madrid não foi o maior derrotado neste sábado em Lisboa.
Não ter conquistado a Liga dos Campeões da Uefa, por mais doído, é algo que não pode ser considerado um fracasso na temporada fantástica que o clube fez.
Em nome da leveza, os grandes derrotados nesta decisão foram os jornalistas cujos textos estavam prontos no momento do gol de Sergio Ramos, aos 48 minutos do segundo tempo.
O branco que brilhava nas telas de seus computadores já era, ali, o claro retrato da noite em que o Real Madrid (4x1: Godín, Ramos, Bale, Marcelo e Ronaldo) se tornou campeão europeu pela décima vez.
O empate nos acréscimos fez mais do que igualar o marcador e determinar outra meia hora de futebol. Estabeleceu a justiça que o jogo nem sempre respeita, inverteu o estado de ânimo dos times em campo e de seus torcedores, mostrou ao Madrid o caminho que esteve fechado durante quase toda a partida.
Pois àquela altura, o time de Ancelotti estava aberto, disposto a correr todos os riscos, lidando com as próprias dificuldades de ser produtivo no ataque posicionado.
O gol não saiu em uma criativa associação entre jogadores ofensivos. Nem foi produto do brilho individual que caracteriza o elenco do time branco. Foi em uma cobrança de escanteio, com o cabeceio de um defensor, como tantas e tantas vezes o Atlético de Madrid comemorou neste ano.
Desta vez, Simeone e seus seguidores experimentaram o lado que lamenta.
Foi como se o 1 x 1 libertasse o Madrid dos efeitos da perseguição a um troféu que o iludia há muito tempo. “La décima”, a taça que parecia proibida depois que Godín cabeceou a bola por cima de um errático Casillas e abriu o placar na Luz, ressurgiu no horizonte quando o tempo se esvaía.
Enquanto o Real Madrid dobrou de tamanho para jogar a prorrogação, o Atlético murchou. O hábito de minimizar problemas e encontrar um meio de tirá-los do caminho, perfil dos recém-coroados campeões da Espanha, teria de encontrar uma situação insolúvel. Ela foi finalmente imposta pela jogada de Dí Maria pela esquerda, concluída pelo toque de cabeça de Bale.
Mais dois gols seriam celebrados pela parte branca do estádio. Um de Marcelo e outro de Ronaldo, de pênalti. Gols que serão lembrados e comentados, mas que devem suas existências à bola que Ramos enviou à rede lateral de Courtois.
Na lateral, Ancelotti só abriu o sorriso dos campeões após o gol que levou Marcelo às lágrimas dos injustiçados. O italiano abraçou Zidane para saborear mais um título europeu em sua conta.
Ancelotti herdou um time atormentado e o converteu em um vencedor. Ele faz jus ao aplauso por conduzir o Madrid ao dia em que a espera terminou. Talvez seja o maior título de uma carreira condecorada, de um técnico que trabalha em silêncio para entregar vitórias sonoras.
A décima conquista europeia do Real Madrid está nas mãos de quem a merece.

1966: A COPA DO MUNDO DE EUSÉBIO

Em 1966, todos os olhos estavam voltados para o Brasil. A Copa do Mundo da Inglaterra poderia ser o palco para o tricampeonato mundial da seleção brasileira, triunfo que faria com que a Taça Jules Rimet fosse entrega de forma definitiva para o escrete canarinho.
Porém, em nosso caminho havia uma forte seleção, que contava com o melhor jogador europeu da época: Portugal, comandada pelo moçambicano Eusébio – Bola de Ouro de 1965 -, estreava na competição e contava com o talento do craque africano, radicado em terras lusas, para ir longe no Mundial. O camisa 13 de Portugal seria o algoz do Brasil no certame e aquele Mundial seria a consagração definitiva do Pantera Negra, um dos maiores craques da história, morto neste domingo, aos 71 anos de idade, vítima de uma parada cardiorrespiratória.
Se os dois gols marcados contra a seleção brasileira (já havia feito um contra a Bulgária) eliminaram os então bicampeões do mundo da Copa, a partida que ficaria para sempre marcada por sua grande atuação seria a seguinte, contra a zebra Coreia do Norte (que havia surpreendido a Itália na fase anterior, eliminando a Azurra de forma precoce na competição), nas quartas de final.
Após ver os asiáticos abrirem 3 x 0, com apenas 25 minutos de jogo, Eusébio comandou uma das viradas mais impressionantes da história das Copas: fez quatro gols, demonstrando uma incrível tranquilidade, comandando a equipe lusa na vitória por 5 x 3.
O Pantera Negra faria ainda outros dois gols no Mundial, um na derrota para a Inglaterra, nas semifinais, que eliminou sua seleção da competição (na partida que seria conhecida como “Jogo das Lágrimas” – derrotado, o craque deixou o gramado com um pranto copioso), e outro na disputa de terceiro lugar, contra a União Soviética. Com nove gols, Eusébio foi o artilheiro da competição, marcando seu nome no livro de ouro dos Mundiais.

RACISMO NÃO É PIADA! RACISMO É BURRICE!


Acredito, de verdade, que o humor muda o mundo. O humor e suas variantes, a ironia, o sarcasmo, o deboche. Para cada situação, uma tirada bem humorada pode ser a mais adequada. A boa piada lubrifica as relações sociais, desarma o agressor, é capaz de milagres.
É perfeitamente compreensível a atitude de Daniel Alves que recolheu uma banana arremessada no gramado para comê-la em seguida. Para quem é o agredido, a babaquice do racismo deve cansar. E Daniel inovou no jogo do Barcelona contra o Villareal ao debochar do cretino que atirou a banana em campo. Neymar deu continuidade ao sarcasmo postando uma foto com o filho David. Os dois com bananas na mão dizendo “somos todos macacos”. Divertido, inteligente e político. Tanto Daniel como Neymar se posicionaram com coragem no caso.
Mas, em algumas situações, talvez nem o humor salve. As respostas de Daniel e Neymar repercutiram, é verdade, só que a impressão é que todo mundo achou engraçadinho e isso vai dar em nada. Cadê a punição? Ah, não acharam o idiota na arquibancada, e fica por isso mesmo? O Barcelona, dirigido por catalães branquinhos da silva, já tratou em um comunicado de tirar a responsabilidade do Villareal. Federação Espanhola e Uefa devem bolar alguma ação de repúdio, só que punição, que é bom, nada.
O racismo não tem graça. Daniel Alves foi criativo e político. Mas talvez essa não seja a melhor maneira de mudar as coisas. Sair de campo, parar o jogo, mostrar que isso é sério, de repente, funcionaria melhor. O racismo não é de hoje, e não é um fato isolado. Estamos percebendo que bananas são os dirigentes que são bons de marketing e péssimos na hora de estabelecer punições mais duras.

QUEM ODEIA QUEM NO FUTEBOL

O futebol não vive sem o ódio. Não o ódio que gera violência, mas o ódio, digamos, racional. Lembre de três caras que você odeia no futebol? E clubes? Bom, para não ficar em cima do muro, vou dizer que odeio clube rico, metido a besta. Não gosto. Ponto.
Muita gente dá um risinho de prazer quando vê um rival cair de divisão ou um ídolo adversário ser estilhaçado por uma crise. Tem uma vertente, que é a dos que amam colecionar vexames rivais.
Mas pouca gente investe no assunto aqui no Brasil. Falar mal de outro time é assunto proibido. São poucas as incursões. Em 2010, ano do centenário corintiano, houve uma tentativa de zombar do alvinegro, sem tanta repercussão.
Lá fora, porém, a coisa não funciona dessa maneira. Pegue a Argentina. O Olé, o maior diário esportivo do país, lançou na década passada uma coleção de deslizes dos dois maiores clubes do país, Boca e River. Na Espanha, o torcedor barcelonista se esbaldou com “Barcelona y el Franquismo”, obra que expõe a proteção do regime do general Franco ao Real Madrid.
Nada, porém, supera “Rebels for the Cause”. O autor, Jon Spurling, torcedor do Arsenal, não tem medo de colocar o dedo nas feridas no clube. Acha que os Gunners só tem esse tamanho porque é um dos clubes mais odiados da Inglaterra. E mais odiado por uma série de fatores.
Vamos a eles. Os jogadores da equipe original, o Woolwich Arsenal, atuam mal. E eram maus perdedores – partiam para a porrada mesmo. O clube começou no sul de Londres e depois migrou para o norte, dividindo as atenções da região com os torcedores do Tottenham. O futebol apresentado entre os anos 60 e 80 estava entre os mais feios do mundo – é a época do chamado “Boring Arsenal”. Tem até uma piada sobre esse time no livro e no filme “Fever Pitch”. O pai leva o garoto para assistir a um jogo de futebol. O Arsenal marca primeiro. Aos 35min do segundo eles saem correndo do estádio. “Mas ainda tem dez minutos de jogo!”, queixa-se o menino. “Você ainda não entendeu o Arsenal”, diz o pai.
O futebol é muito mais divertido quando as verdades não são absolutas. É válido questionar, é válido não gostar. É válido também dar um risinho quando as coisas vão mal do outro lado. Ah, em tempo: o livro de Jon Spurling foi rejeitado pelos dirigentes do Arsenal.

FUTEBOL E TRAIÇÃO

Quando, em 2002, o Wimbledon renegou seu passado para virar MK Dons, ninguém imaginaria que dez anos depois ele o reencontraria. No domingo, 2 de dezembro, o time criado pelos fãs abandonados enfrenta pela primeira vez o clube que se deslocou 90 km rumo ao norte para ter um estádio em que pudesse mandar seus jogos.

A história renderia um filme. O Wimbledon passou 89 anos nas ligas amadoras inglesas. Conseguiu o direito de disputar seu primeiro campeonato profissional em 1977. Nove anos depois estava na primeira divisão inglesa. Mas foram dois acontecimentos ligados à Copa da Inglaterra que mudaram a história do pequeno clube de bairro da zona sul de Londres.
A primeira delas é a lendária geração “Crazy Gang”, um time de brutamontes que conquistou em 1988 a FA Cup diante do Liverpool, o papão de títulos da época. Foi a segunda equipe na história a conquistar a versão amadora e também a profissional. 
Há uma penca de livros sobre essa era. O principal deles é The Crazy Gang: The Inside Story of Vinnie, Harry, Fash and Wimbledon FC, de Matt Allen. Mas vou me ater ao ultimo, lançado neste semestre na Inglaterra: Underdog, de Tim Quelch.
Quelch estabelece um definitivo ponto de combustão futebol/pop desde a década de 1950. O livro – não apenas sobre o Wimbledon, mas sobre todos os vira-latas que fizeram história no futebol inglês – classifica seus capítulos por músicas da época.
A do Wimbledon se encaixa em Rise, canção do PIL de 1986, das linhas “eu posso estar certo, eu posso estar errado”. Nada melhor para definir aquele time. Eles eram temidos por jogarem feio. Tinham no elenco um mau caráter, Vinnie Jones. Seu estádio era o acanhado Plough Lane, para 7000 pessoas. Podia estar tudo errado. Podia estar tudo certo. Quem define isso?
Foi na campanha da FA Cup de 1988 que Vinnie protagonizou a inesquecível cena em que aperta as partes baixas de um jovem Paul Gascoigne, então no Newcastle. Vinnie, que depois viraria um ator requisitado (esteve em Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Penalidade Máxima), foi o grande personagem. No jogo decisivo contra o Liverpool, não poupou cuspes e disse: “Nada dessa história de cumprimentar. Vamos passar direto”. O time fez um pacto: nada de se barbear ou de tomar banho 24 horas antes da final. O Wimbledon venceu por 1 x 0.
Um ano depois, o mesmo Liverpool enfrentou o Nottingham Forest em Sheffield pela semifinal da FA Cup. Uma confusão nas arquibancadas fez com que 95 pessoas morressem esmagadas. Em 1990, Lorde Taylor de Gosforth elaborou o relatório que ordenou que todos os estádios das duas principais divisões inglesas tivessem espaços apenas para torcedores sentados.
Foi o começo do fim do Wimbledon. Era impossível adaptar o pequeno Plough Lane à nova regra. Assim, o clube passou a mandar seus jogos no estádio do Crystal Palace, o Selhurst Park, também no sul de Londres. Foi lá que registrou o pior público da história da liga inglesa: 3039 pagantes para assistir a um Wimbledon x Everton, já pela Premier League em 1993.
A proposta para mudar de cidade foi aceita em 2002 pelos proprietários do clube. Milton Keynes tinha um bom estádio, mas não tinha time. Os torcedores protestaram. Em vão. Como vingança, fundaram o próprio clube, o AFC Wimbledon. A federação inglesa aceitou a mudança de cidade em 2004, desde que um novo clube fosse criado esquecendo o passado.
Desde então, o MK Dons é chamado de “franquia” pelos admiradores do velho Wimbledon. O clube criado pelos torcedores ascendeu meteoricamente para a Football League. Chegou na temporada 2010/11 à quarta divisão, a primeira etapa profissional do futebol inglês. Está a apenas um degrau do clube que renegou a sua história em troca de um estádio.

FUTEBOL E SUAS MUDANÇAS

DIALETOS
O debate sobre estilos jamais terá fim porque o futebol é como um idioma e seus vários dialetos. A escolha de uma forma de se comunicar depende de capacitação e de visão de mundo. O objetivo final é o mesmo, a diferença está no caminho para alcançá-lo.
José Mourinho e o Chelsea aplicaram a “estratégia do morcego” no jogo contra o Atlético de Madrid: todos pendurados no travessão. Diante do time inglês – beneficiário de um dos mais generosos orçamentos do futebol – não havia um adversário devastador, mas um Atlético que traduz o que é ser competitivo nos dias de hoje.
Anular-se para fazer o mesmo com o oponente é o expediente de equipes estéreis, que só sabem lutar e rezar. O Chelsea é mais do que isso, independentemente das convicções de seu treinador. O direito a escolhas vive na companhia da exposição a críticas, como ocorre com o lutador que dança pelo ringue para fugir do alcance do rival. Alguns o qualificam como inteligente, outros o chamam de medroso.
No dia seguinte, Real Madrid e Bayern fizeram, aí sim, um duelo de propostas baseadas em suas respectivas qualidades. É um equívoco relacionar o jogo de espera-e-saída do time espanhol com a conduta do Chelsea. A equipe de Ancelotti enfrentou um adversário com quem é inútil discutir a posse, e investiu em seu caráter de especialista na transição. O Real Madrid tinha um plano, o Chelsea fingiu que tinha.
Curioso perceber que os times mais diferentes das semifinais da Liga dos Campeões pecaram no mesmo aspecto. Atlético e Bayern não souberam gerar perigo por intermédio da manutenção da bola, o que é muito mais grave para os alemães, expoentes do jogo de posse.
O futebol foi inventado para ser jogado. Há distintas maneiras de fazê-lo, todas dentro das regras. Também há como se negar a jogar e se esconder sob um argumento pragmático no qual só crê quem quer. Se o resultado é tudo o que você pretende, o que restará se ele não vier?

DOCUMENTO
Seria ótimo se pudéssemos debater os estilos de futebol praticados no Brasil. Melhor ainda se a conversa se baseasse em ideias de jogo que fossem identidades de clubes, mantidas por filosofia. Mas o resultado reina absoluto e as derrotas encerram trabalhos, enquanto poucos times se preocupam em ter um perfil próprio. Menos ainda se destacam por isso.

PERMANÊNCIA
No período do tricampeonato brasileiro, o São Paulo tinha um RG sob Muricy Ramalho. O mesmo se pode dizer sobre o Corinthians nos anos Tite. Dois casos em que se nota a relação entre os títulos e a permanência da comissão técnica por mais tempo do que a média no país. O Cruzeiro aparece como candidato a seguir esse caminho com Marcelo Oliveira.